Entrevista a Beatriz Gil - autora do livro “Gente com Gente dentro” [Alfarroba]
Boa tarde meninas e meninos hoje, trago-vos a entrevista que o blogue "A leitura é um Oásis" realizou a Beatriz Gil - autora do livro "Gente com Gente dentro".
Espero que vocês apreciem esta entrevista tal como eu :)
Entrevista:
1- Descreve-nos
um pouco sobre ti, isto é, como és e do que mais gostas de fazer.
Revejo-me no ser humano enquanto
conceito abstrato, ou seja, aquilo que ele de facto é quando ninguém está a olhar,
em oposição ao concreto, àquilo que ainda vamos tendo uma necessidade que roça
o ridículo de nos fazermos passar por uma qualquer coisa que esperamos ser
aquela que gostavam que fôssemos. Gosto de me ver como uma espécie de silêncio
ensurdecedor, em ebulição, sempre com um pé virado para o caos e o outro no doce
que é a ausência total de ruído. Espírito em polvorosa, se assim me fizer
melhor entender. O que gosto de fazer… claro que escrever terá de passar por
aquilo que, apesar de nem sempre gostar por me fazer sofrer (dependendo dos
temas), mais faço e mais prazer me dá. Além disso, exatamente o mesmo que
tantas outras pessoas, a música preenche uma boa parte do meu tempo. A música,
o cinema e a leitura. No final do dia aquilo que mais gosto de fazer talvez
seja mesmo observar esta coisa toda que é a vida e amá-la imensamente por todas
as falhas, cicatrizes e socalcos que nos vai colocando no caminho, sabendo ela
própria, a vida, que somos apenas humanos, e que volta e meia nos é permitido
deixá-la a descansar à sombra de um chaparro.
2- Este é o teu primeiro livro?
Não, o meu primeiro livro é o “Punhos
Cerrados”, editado pela Chiado Editora. Um livro que essencialmente fala sobre
a perda, num tom distinto deste novo “Gente com gente dentro”, que retrata
pequenas histórias, enquanto que o “Punhos Cerrados” tem uma narrativa contínua,
em forma de novela.
3- Conta-nos como foi escrever este
livro?
Este livro foi-se escrevendo a ele
próprio. É o resultado de cerca de um ano de contos e crónicas escritos ao
sabor das horas e dos meses. É um livro imensamente meu, dentro contém muito
daquilo que eu sou no meu mais profundo íntimo, daquilo que vejo, daquilo que
sinto, daquilo que eu julgava ser a vida e daquilo que ela afinal de contas é,
vista através dos meus olhos.
4- Como é que surgiu esta narrativa?
Como referi na resposta anterior, este
livro é o produto de várias noites de insónia e de vários dias ora cinzentos,
ora encandeados pela mais ofuscante luz. Falar sobre as pessoas, que eu tanto
amo, sobre aquilo que, correndo sérios riscos de me enganar redondamente,
adivinho serem as suas vidas. Além deste prisma, o dos outros que me saem de
dentro, está cheio de pequenos contos que são inteiramente a minha própria
vida. Vários contos aliás falam sobre pessoas que, de uma forma ou outra, me
foram importantes, tão importantes que a urgência em escrever sobre elas foi
tão violenta que aí estão, despidas de um pudor que não sei se reconhecem ou
sequer querem, mas que é aquilo que me fazem sentir, todas as palavras e
emoções que me ensinaram, sem floreados ou pretensões de agradar a um grego,
sendo eu troiana.
5- Que conselho dás às pessoas que tal
como tu querem ver o seu trabalho publicado?
As minhas andanças por estes meandros
que são a escrita editada e publicada são reduzidas, apesar de valorizadas, e
por isso tenho a agradecer aos que me leem e constantemente me contactam com críticas,
comentários ou simples palavras de apreço. Apesar deste meu curto trajeto,
julgo ter já algum material em mãos para poder afirmar que o processo de
publicar um livro deve ser levado a sério, desde a escolha da editora, à
revisão do trabalho a ser publicado, que deve ser o espelho daquilo que
realmente querem dizer. Ou seja, devem ser meticulosos com o vosso trabalho,
não caírem na precipitação, que julgo acontecer tantas vezes, de quererem
publicar o mais rápido possível, a qualquer custo e cedência. Acima de tudo,
respeitem o vosso trabalho e certifiquem-se de que quem o vai levar ao mundo
também o respeita, tanto quanto vocês. E é neste ponto que a Alfarroba foi a
chave, a alavanca para que de repente o “Gente com gente dentro” ganhasse vida,
e que essa vida tenha sido (e seja) altamente respeitada, valorizada e tratada
com um profissionalismo e carinho incríveis.
6- Que projectos na escrita tens para o
futuro?
De momento estou a trabalhar no segundo
romance, que vai crescendo sempre mais um pouco e devagar vai ganhando a forma
que pretendo que tenha. Tem o título provisório (que pode bem vir a ser o
definitivo) de “Memória Descritiva”, posso apenas adiantar que se trata de uma
história em que duas gerações colidem e quando isto acontece, já se sabe, o
universo para o que pode acontecer é infinito. Além deste romance continuo a
escrever crónicas e contos no meu blog, que tem o mesmo nome do livro “Gente
com gente dentro” (http://bgil-gcgd.blogspot.pt/),
que gostava que pudessem um dia vir a representar, quem sabe, um segundo volume
do “Gente com gente dentro”, em formato físico.
7- O que é que acha do blogue A leitura
é um Oásis?
Tenho pena que não existam mais blogues
com esta estrutura, cuidada, interessada, atualizada e que acima de tudo
valoriza aquilo que de novo e bom vai aparecendo. Como o vosso nome já o diz: é
um oásis. Bom encontrar e saber que, afinal de contas, para nós escritores e
para vós leitores nem tudo está perdido, que ainda vale a pena sangrar a alma
para uma folha de papel e que ela, essa mesma folha de papel tingida com o
sangue de quem a escreveu, vai ser acarinhada e compreendida por quem a lê, que
por sua vez, a sangra também, à sua maneira, porque se revê e às tantas o
escritor já não interessa nada, são os leitores que estão ali, a escrever a
história por nós, a torná-la sua. E ainda bem que assim é!
Questões
rápidas:
Livro: “Morreste-me”, de José Luís
Peixoto (difícil escolher só um)
Autor: António Lobo Antunes (muitos
outros nacionais e outros tantos estrangeiros)
Actriz/Actor: Marlon Brandon
Filme: A
Lista de Schindler
Dia especial: 31 de Julho de 2008
Um desejo: que não me escape nunca entre
os dedos a capacidade de escrever e de amar.
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